Artigos Peregrinos

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Cães e coelhos
Auro Lúcio
No dormitório, espaçoso e muito bem arrumado, com lençóis e cobertores nas camas, ainda pude ver e ouvir - ao lado do meu beliche - o grupo dos franceses divertindo-se com um concurso de arrotos e outros sinais evidentes de uma re-adolescência aguda. Enfim, ao contrário do nome do primeiro filme dos Beatles, foi a noite de um dia divertido.

Como venho fazendo todos os dias, aproveito o quase-silêncio do dormitório para refletir sobre o dia de hoje, e pensar no que me espera amanhã.

O primeiro livro que li sobre o Caminho de Santiago foi - como deve ter sido para muitos por aqui - o Diário de um Mago. Dos relatos fantásticos de Paulo Coelho, foi a luta com o cachorro Legião o que mais me impressionou, pela dramaticidade da narrativa. Li esse livro há quase dez anos, mas ainda tenho na memória as informações básicas do trecho que se refere a esse lugar: Foncebadón é uma vila em ruínas, e diz a tradição (e o medo dos peregrinos) que há cães ferozes por lá. Mesmo no livro do Máqui, que li um pouco antes de vir para cá, é possível sentir sua expectativa e ansiedade antes da passagem pela aldeia abandonada.

Desde o início do caminho, em Saint Jean, estamos recebendo sempre informações tranquilizadoras sobre a ausência desse tipo de risco à nossa integridade física; de fato, como já escrevi antes, a maioria dos cães de guarda vive presa no interior das casas, e os vira-latas soltos têm sempre mostrado, à minha passagem, mais curiosidade do que agressividade.

No caso da luta com o cachorro Legião, pelo que compreendi no livro de Coelho, houve a simbolização da disputa de poder entre o autor daquele livro e o que - pare ele - era a representação das forças demoníacas. Entendo que aquilo é a descrição de uma luta pessoal, por motivos pessoais, e que cada um de nós enfrenta seus demônios conforme sua realidade interior. As formas que representam o poder da Matéria estão sempre fazendo o apelo para que renunciemos à busca do espiritual superior e para que assumamos nossa forma orgânica e nosso ambiente físico como únicas realidades; os convites para que o homem viva exclusivamente para o mundo terreno - Maya - existem em todas as formas de mitos e religiões, dos quais lembro agora o relato evangélico das tentações a que Cristo foi submetido, no deserto, e o mito do paraíso, onde Adão e Eva cederam aos convites tentadores da serpente para que adquirissem a capacidade humana do juizo. Conforme todas essas histórias e mitos, o demônio - ou seja, aquilo que em nós nos quer apenas seres materiais - toma todas as formas possíveis para tentar convencer o homem que sua verdadeira natureza é o barro, e que é no plano da matéria que ele deve buscar sua realização. A beleza dramática e inigualável da disputa de Fausto com seu Príncipe das Trevas, ou o acordo feito por Dorian Gray para permanecer sempre jovem, bonito e poderoso, são alguns exemplos de batalhas que ocorrem entre nossa natureza humana e a nossa vocação para o sublime, para a busca do Absoluto.

Agora que o concurso de arrotos terminou, e que um dos franceses veio de cama em cama simulando beijinhos de boa noite para todos, repasso na memória as cenas finais do romance A última tentação de Cristo, que li em 1974: mesmo na agonia da cruz, o demônio - apresentando-se na forma de uma criança angelical - ainda tentou oferecer ao Cristo a opção por uma vida familiar, serena e cheia de encantos; Mostrou-lhe como poderia ser bom e agradável a Jesus assumir seu papel humano, ter uma mulher e filhos, desistindo do sacrifício cósmico pelo qual sublimaria o peso da matéria humana na criação do Homem. Pouca vezes um livro me tocou tão fundo, e essa obra de Nikos Kazantzaki tem me ajudado a viver, e a compreender melhor, muitos momentos aparentemente confusos e obscuros de minha vida.

É assim que penso ser a relação com o demônio: não uma luta de vida e morte, onde um será vitorioso e o outro projetado em abismos eternos, mas uma convivência a ser estabelecida com contínuos cuidado e atenção. Em Foncebadón ou Caraguatatuba sempre haverá momentos em que minha porção carnal tentará se mostrar como meu verdadeiro Eu, no qual existiria uma "idéia" mental de Deus e do Absoluto. Com a mesma disposição que tive quando arrancava minha bota do barro de Zubiri, no início do caminho, estarei atento para a certeza de que meu Eu - parte do espírito divino - é que está se apresentando, nesse momento e nesse lugar, moldado em um recipiente de átomos de carbono, oxigênio e outros, concentrado em uma forma transitória, imperfeita e efêmera, muito efêmera.
 
Enviado por Auro Lúcio Silva - Visite sua homepage
 
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