Artigos Peregrinos

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A praça da fonte e a velha espanhola
Alexandre Dorneles
A Velha Espanhola

Tarde de céu azul, sol, temperatura fresca. Embalado pelo mantra gerado pelo som dos seus próprios passos, o peregrino não havia se dado conta que estava andando há umas três horas, que não havia bebido água e que suas pernas pediam um pouco de repouso. Ele apenas ia em frente, rumo a Santiago de Compostela.

Alguma coisa o trouxe à realidade e ele passou a examinar o lugar por onde passava. A ondulação do terreno e a paisagem tipicamente rural o animavam ainda mais. Viu então os primeiros telhados. Uma seta amarela pintada numa cerca indicava, desnecessariamente, neste caso, o rumo a ser tomado - não havia desvios na estrada e no lugarejo adiante deveria haver, certamente, um bar. O que quer dizer que seria um destino quase que obrigatório para os caminhantes.

O peregrino entrou na pequena cidade, cujo nome lhe escapara, pela Calle Mayor. Rindo para si mesmo, vinha percebendo que, não importava o tamanho do pueblo, todos tinham sua Calle Mayor. Avançando por mais alguns metros sem encontrar pessoa alguma, se deparou com uma pequena praça. Uma praça típica, com dois bancos de madeira com encosto e braços, dispostos frente à frente (não os braços, mas os bancos...), uma fonte de água potável com duas bicas, um minúsculo e bem cuidado gramado e só. O bar ficava no lado da sombra da tarde e estava aberto.

Tirou o chapéu, soltou os tirantes da mochila deixando-a no chão, descalçou as botas calmamente; as meias foram colocadas no braço do banco para facilitar a secagem, e espalhou o corpo no banco para relaxar. Depois de alguns instantes se levantou e foi até a fonte onde bebeu um bocado de água, molhou abundantemente a cabeça não se importando que molhasse também boa parte da sua camisa e encheu o cantil. Voltou para o banco e desistiu de ir ao bar. Ficou sentado um bom tempo olhando a fonte e a fachada das casas. Quase todas tinham jardineiras floridas nas janelas do segundo piso. Pensou quantos peregrinos haveriam de ter feito os mesmos gestos e observações. Mais uma vez riu para si mesmo, desta vez da banalidade do seu pensamento.

Achou que a qualquer momento outro ou outros peregrinos poderiam aparecer e por isso começou a se preparar para seguir adiante apesar de estar gostando de ficar ali, dono da praça e do banco, do silêncio. Vinha caminhando sozinho por três dias, quase não falava e, estranhamente, estava gostando da experiência e da própria companhia. Estar só, pensou, não significa solidão e, como ainda faltavam muitas e muitas dezenas de quilometros para chegar, deixou em aberto na sua mente a confirmação dessa conclusão.

Depois de se calçar e antes de colocar a mochila, um som vindo de trás e da direita alterou o equilíbrio das coisas. Uma minúscula e encurvada velha espanhola, aparentando uns 483 anos, toda de preto dos pés à cabeça, empurrava lenta e cadenciadamente um carrinho de mão com uma enorme carga de uma espécie de capim. A brava velhinha margeou a praça e seguiu pela Calle Mayor, no sentido oposto ao que viera o peregrino. Ele a acompanhou com os olhos até ela desaparecer. Imaginava que alguém deveria ajudá-la. Depois ficou pensando porque não foi, ele próprio, ajudá-la. Será que alguém iria ajudá-la?

O peregrino, então, antes que outro ou outros peregrinos chegassem e quebrassem o seu encanto, seguiu seu caminho para dentro de si mesmo.
 
Enviado por Alexandre Dorneles
 
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