Artigos Peregrinos

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Buen Camino !
Alexandre Dornelles
- Peregrino!

Recostado num muro baixo de pedras, o peregrino levantou a aba do chapéu olhando simultaneamente para a direção de onde vinha aquela voz meio rouca e viu o velho agricultor. Macacão azul, muito comum entre os trabalhadores urbanos e rurais, rosto marcado pelo tempo, mãos de quem está na lida desde há muitos anos, o velho já viu, com certeza, muitos peregrinos estropiados passarem por ali rumo a Santiago de Compostela, almejado objetivo para aqueles que buscam um encontro consigo mesmo, ou com Deus, não necessariamente nessa ordem.

Embora já tendo caminhado mais de trinta quilometros desde Ferreiros, o peregrino não estava cansado. Parou ali meramente para passar o tempo e porque queria desfrutar a paisagem rural galega, bonita, verde e calma. Ficou sentado olhando o campo em volta, divagando, pensando nos dois ou três dias que ainda faltavam para chegar e nos milhares de passos dados até ali. Pensou também que a sua noção de tempo mudou, pensou mais um monte de coisas e acabou cochilando, tendo sido, então, despertado pelo velho. O homem começou imediatamente a conversa dando conta dos peregrinos que passaram por ali, avisou que nos próximos dias não iria chover e fez a avaliação sobre o mau estado em que o peregrino se encontrava: cansado, sem ânimo para continuar e sem saber o que fazer. O simpático agricultor estava totalmente errado, mas o peregrino limitou-se a sorrir e não entrou no mérito da questão pois compreendeu que ele estava querendo ajudar e isso bastava. Apoiado numa espécie de vassoura bem grande, o agricultor informou que só faltavam 2,5 km de subida suave para o excelente albergue de Mato Casanova e que Carmen, a hospitaleira, mora em frente do albergue.

O peregrino não teve coragem de dizer que queria ficar ali para contemplar um pouco mais e se sentindo na obrigação de, após o "incentivo", mostrar que estava reanimado para prosseguir a jornada, se pôs de pé, arrumou a mochila nas costas e se despediu do amigo com um abraço. Ali estava uma daquelas figuras anônimas que fazem o Caminho sem nunca se afastar do seu pueblo. Contra sua vontade, retomou a caminhada mas não ficou chateado pois a cara de felicidade do homem ao ver o peregrino "recuperado" foi impagável. O tom da sua voz foi mais de incentivo do que de despedida:

- Buen camino, peregrino!

Após andar uns passos, o peregrino se virou para dar o último adeus. Lá estava o velho, firme, acenando, apontando o caminho como tantas vezes já fizera, sentindo a importância da solidariedade no Caminho de Santiago. Nesse ponto o velho e o peregrino concordavam.

Enviado por Alexandre Dorneles
 
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