Artigos Peregrinos

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A subida dos Pirineus
De como foi preciso travar uma batalha onírica contra os guerreiros de Ibañeta
Alberto Sena

Eram 8h quando deixamos o hotel, em Saint-Jean-Pied-de-Port, pequena cidade do interior da França, para o início da caminhada de 800 quilômetros rumo a Santiago de Compostela, na Espanha. Paramos na ‘puente de España’ sobre o rio Nive para tirarmos uma foto. O relógio da Igreja de Nôtre Dame em estilo gótico datado do século XIV marcava 8h15. O tempo estava nublado e logo que pegamos a estrada asfaltada, já fora da cidade, começou a chover fino. De um lado e do outro da estrada, a paisagem verde cana era de ofuscar os olhos. Pisávamos um mundo diferente do nosso sob todos os aspectos. Um rebanho de carneiros pastava tranqüilo sem a presença do pastor. Ou talvez ele estivesse abrigado numa mata próxima por causa da chuva fina e fria que caía intermitente. Tínhamos de encontrar logo um cajado, Tudinha concordou comigo.

Íamos andando pelo acostamento da estrada, na contramão, a fim de vermos os carros de frente. Essa é a melhor maneira de caminhar para não ser surpreendido pelas costas. Vendo os carros de frente, podíamos nos safar caso um motorista maluco cometesse alguma barbeiragem pondo em risco a nossa vida.

Mochilas nas costas, nós íamos olhando para os lados procurando algum pau no mato que pudesse nos servir de cajado. De repente, estirado numa vala, lá estava uma vara comprida, de mais de três metros, esperando por nós. Peguei a vara pensando em como fazer para transformá-la em dois cajados, e cerca de 500 metros adiante deparamos com uma fazenda onde um homem munido de esmeril arrancava faíscas nas ferragens de um arado nos fundos da casa. Logo que ele nos avistou, acenamos-lhe com a mão numa saudação e nos aproximamos. Ele percebeu o que queríamos, e com boa vontade partiu a vara em duas com o próprio esmeril e ainda retocou as pontas, de modo que ficamos com dois cajados genuínos e nos pusemos a caminho depois de desejar ao fazendeiro francês êxito nos negócios.

A chuva fina deu uma trégua. A cada dois passos fincávamos os cajados no chão. Ouvíamos o ruído do atrito das nossas botas nas pequeninas pedras azuis do acostamento da estrada e do toque do cajado no chão. Naquele dia, a previsão era encerrar jornada em Roncesvalles, já em território espanhol, mas antes tínhamos que vencer a subida dos Pirineus. Algumas pessoas haviam nos alertado antes sobre as dificuldades da subida. Nós tínhamos duas opções. Uma delas era seguir pela estrada asfaltada, que facilitava a caminhada, e a outra, ir pela trilha mato adentro, mais difícil e com algum risco por causa do terreno íngreme e escorregadio. Optamos por seguir pela trilha porque para nós tinha mais sabor de aventura do que o asfalto de uma estrada movimentada e cheia de curvas por onde os carros trafegavam em alta velocidade.

Saímos do asfalto e entramos na trilha marcada por setas amarelas que indicavam o caminho a seguir. Tínhamos andado se muito meia hora quando a chuva voltou a cair, mas desta vez pesada e fria. A chuva logo se transformou em granizo. Pedras de gelo do tamanho de uma bolinha de gude caíam sobre nossas cabeças e não tínhamos como nos proteger delas, apesar das árvores altas de folhas de um tom amarelado, características daquela região dos Pirineus. Em certo ponto as setas amarelas desapareceram ou nós, por um descuido qualquer, nos embrenhamos por um caminho errado onde encontramos um córrego de águas límpidas. Bastou um escorregão para que os meus pés se enfiassem dentro do córrego e as minhas botas ficassem alagadas. A água gelou os meus pés. As minhas mãos já estavam como duas pedras de gelo por causa da chuva de granizo e então comecei a me sentir sonolento. Foi quando avistamos duas pessoas que passavam por uma trilha lá no alto da montanha e nos demos conta do nosso erro. Mais que depressa subimos a montanha abrindo caminho no mato, e no afã de alcançarmos a trilha certa, Tudinha se enroscou em um arbusto de espinhos. Além de rasgar a capa de chuva, de plástico amarelo, as mãos dela se encheram de espinhos. Apesar de tudo retomamos a trilha certa e alcançamos as pessoas que havíamos visto lá de baixo. Eram duas senhoras belgas. Uma mais de idade e a outra nem tanto. Elas seguiam a passos lentos. Tentamos nos comunicar e seguimos juntos por algum tempo, até que elas resolveram pegar a estrada asfaltada temendo a chuva.

Nós insistimos em caminhar seguindo a trilha. A chuva havia parado, mas o frio persistia. A cada passo aumentava em mim a sonolência. Pensei com os meus botões que seria algo passageiro e não dei muita importância ao fato. Em certo ponto do caminho encontrei um ...... utilizado para esquiar na neve, ferramenta usada por peregrinos europeus e norte-americanos para apoio também durante a caminhada a Santiago de Compostela. Numa das mãos levava o cajado e na outra o ... Mas logo me cansei dele e o descartei numa ribanceira. Depois disso, a cada passo sentia as pálpebras pesadas, vontade enorme de me soltar e dormir sono profundo. Mas resistia à tentação, pois parecia que estávamos próximos de alcançar algum lugar onde poderíamos parar e nos abrigar do tempo frio.

Pouco depois avistamos um monturo próximo do que seria uma capela, um lugar conhecido por Ibañeta. O lugar é estranho, cheio de cruzes de todos os tamanhos. Conta-se que naquele lugar foram travadas batalhas nas quais morreram cerca de quatro mil pessoas no ano 778. E desde que o caminho foi iniciado, tornou-se uma tradição os peregrinos deixarem uma cruz fincada em Ibañeta. Eu sabia disso, pois havia lido a respeito e tinha a intenção de fazer a mesma coisa, mas não tive ânimo por causa da sonolência que tomou conta de mim. Tinha de parar para dormir a qualquer custo. Fazia frio glacial, as mãos e os pés estavam gelados. Da mesma coisa reclamava Sílvia, e nós nos abrigamos debaixo do que seria a marquise da capela. Tentei abrir a mochila usando as duas mãos, mas não consegui. Estavam duras de frio. Percebi que a mesma coisa acontecia com Sílvia e ela então usou a boca. Dizia que estava com o corpo queimando de frio e tinha de trocar de roupa. Nós nos abraçamos e ficamos bem juntinhos para um aquecer o outro e com muito custo consegui retirar as minhas botas. Sílvia trocou-me as meias e abriu o saco de dormir e com certa dificuldade e repetindo que precisava dormir, entrei nele.
Sílvia contou depois que eu dormi mais de uma hora e enquanto dormia ela tentava me acordar temendo pela minha vida, pois me disse que eu estava pálido e com os lábios roxos. Tive, em verdade, um princípio de ‘hipotermia’. Corri risco de vida naquele lugar.

Como pude deduzir mais tarde: o que aconteceu foi algo mais sério e impressionante do que a queda brusca da temperatura do meu corpo e a terrível sonolência. Em sono profundo, travei intensa batalha onírica com almas de pessoas abatidas nas refregas travadas ali há séculos. Numa outra dimensão, lutei contra guerreiros de Ibañeta, que de toda maneira estão sempre a tentar e nunca conseguirão retornar para este plano de vida, mortos que foram de maneira a mais sangrenta, e que por acaso se aproveitaram do meu estado debilitado.

Mas sobrevivi. Pelo simples fato de que acordei, fui o vencedor da batalha onírica. Sílvia estava do meu lado. Vi-me estirado no chão, dentro do saco de dormir, com a cabeça apoiada sobre a mochila. Sentia-me bem e fiquei surpreso com a densa névoa que não deixava a gente enxergar quase nada além de um palmo do nariz. Por uma providência dos céus, um casal paulista que conhecemos antes do embarque para a Espanha, ainda em São Paulo, passava a pouca distância de nós e nos reconheceu. Os dois pararam e conversamos durante alguns minutos. Sílvia contou-lhes o que havia se passado e logo a mulher se apressou em me oferecer um chocolate. Aceitei e comi um pedaço e me senti mais disposto ainda. Fomos andando juntos pelo acostamento da estrada asfaltada, e ao fim da tarde chegamos a Roncesvalles.      

Enviado por Alberto Sena
 
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