Artigos Peregrinos

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O Ataque da Mulher Loira
De como os nossos dólares e euros quase foram roubados em meio ao silêncio da madrugada
Alberto Sena

Virgen del Camino podia ser como um bairro da grande cidade de Leon de tão próximas. Passamos uma noite lá e até inauguramos um dos hotéis da cidade, recém-construído, na primeira vez que fizemos o Caminho de Santiago de Compostela, em 2001. Coincidência ou não, de novo pernoitamos em Virgen del Camino e nos hospedamos no mesmo hotel. Ficamos no mesmo apartamento e dormimos na mesma cama de um ano atrás. Foi muito interessante porque pudemos fazer uma ‘vistoria’ do lugar e tudo parecia em ordem, ainda com cheiro de coisa nova.

Na noite anterior combinamos que tentaríamos chegar à cidade de Astorga. Mas para isso teríamos de andar mais de 40 quilômetros, o que representaria uma jornada com mais velocidade. E foi. Pelo caminho encontramos um jovem gaúcho que acabara de iniciar a caminhada interrompida no mês anterior porque teve de voltar ao Brasil. Ele estava descansado, enquanto que nós, andando havia vários dias, estávamos com panturrilhas e solas dos pés doloridas. Ainda assim fomos andando ao ritmo dele. O gaúcho era falante, egocêntrico, do tipo que gosta de superestimar as coisas e até o perigo. Contou-nos que dois brasileiros haviam morrido no Caminho no ano anterior. Um deles empreendeu a caminhada no meio da neve e dias depois foi encontrado morto numa ribanceira, lá nos Pireneus. O outro, com antecedentes cardíacos, teve um enfarto durante a jornada e fez a viagem derradeira.

Em vários pontos do Caminho encontramos flores de diversos matizes, até azuis, cor rara de se encontrar. Achamos melhor fotografar flores para montarmos um painel com as melhores fotos e dar um título “Flores del Camino de Santiago”. Fazer isso era melhor do que ficarmos disparando a máquina na nossa direção. Com essa intenção fomos distanciando pouco em pouco do gaúcho, de modo que entramos na cidade de Hospital de Órbigo pelo ‘el Passo Honroso’, ponte medieval sobre o rio Órbigo, onde aconteceram batalhas violentas durante a guerra civil espanhola. Foi lá onde nos despedimos do gaúcho achando que nunca mais voltaríamos a vê-lo. Ele disse que ia pernoitar ali. E a nossa intenção era ficar o tempo suficiente para comer espaguete e tomar uma garrafa de vinho. Nós fomos procurando um restaurante e um quarto de hora depois avistamos um. Entramos e eis que lá já estava o gaúcho. Achamos engraçada a coincidência, porque na cidade havia outros restaurantes. Nós não nos sentamos juntos. Ele comia um espaguete e bebia vinho. Ao final da refeição sobrou um quarto da garrafa e o gaúcho nos ofereceu. Aceitamos e logo que acabou de comer ele se despediu e essa foi de fato a última vez que o vimos.

Logo que acabamos de almoçar reiniciamos a caminhada. Astorga ainda estava muito longe. Deixamos a cidade e mais de dois quilômetros depois estávamos em Villares de Órbigo. Sílvia começou a reclamar de dores nas pernas. Ela andava com dificuldade, se apoiando no cajado. Fiquei pensando, sem querer perguntar, por causa do receio de ouvir a temida resposta, se ela se achava ou não em condições de continuar andando. Como continuasse reclamando dores nas pernas, tive de fazer a pergunta fatal e ela não respondeu de imediato. Pensou um pouco e perguntou:

__ Qual é a próxima cidade?
__ Santibáñez de Valdeiglesias – eu disse.
__ Qual a distância? Ela perguntou.
__ Menos de 3 km – eu respondi.
__ Então vamos em frente – disse ela, se enchendo de coragem.

Mas foi só chegar em Santibáñez de Valdeiglesias para Sílvia dizer que não ia agüentar seguir em frente. Tínhamos de parar ali mesmo, e então descobrimos que o lugar era minúsculo. Só havia albergue de peregrinos, da Igreja Católica, e um bar. Mas o que fazer se nós tínhamos de ficar ali? Encontramos logo o albergue e não havia ninguém na recepção. Comunicamo-nos como pudemos com duas alemãs que arrumavam suas camas e Sílvia procurou um beliche para deitar porque dizia que não estava agüentando ficar de pé de tanta dor. Fiquei ali pela entrada na expectativa de que chegasse alguém para receber os quatro euros do pernoite.

Vi um homem entrando e logo achei que era ele o padre. Era. Ele ficou olhando Sílvia deitada na cama com olhar reprovador, mas logo expliquei que ela estava sentindo dores nas pernas e tomou a liberdade de deitar sem antes combinar alguma coisa com ele. O padre entendeu. Paguei os pernoites e logo ele saiu de cena. E nós também, deixamos as mochilas no albergue e fomos dar umas voltas pelo lugar. O silêncio ali era cortado só de vez em quando pelo ruído do bater de asas das cegonhas que fizeram os ninhos no campanário da igreja. Os nossos passos nos levaram a uma pracinha em frente da igreja de pedras seculares. Estirei-me em um dos bancos da praça, a cabeça apoiada no colo de Sílvia e quedei ali por eternos minutos contemplando o céu azul de Espanha, mesclado de nuvens, como se as nuvens fossem um rebanho de carneiros. Andorinhas faziam primavera ao redor do campanário da igreja ocupado pelos ninhos das cegonhas. E me lembrei então de Carl Gustav Jung, que recomendava a contemplação de nuvens como exercício à criatividade. Vi então uma porção de formações diferentes de nuvens e pude, no silêncio do coração, agradecer a Deus por estar empreendendo uma caminhada rumo ao interior de mim mesmo.

Fomos despertados, de repente, pelo som do bronze do sino da igreja chamando os fiéis para a missa. Achamos providencial a oportunidade de participarmos da missa e nos encaminhamos para a igreja. Não havia ninguém lá dentro e fomos nos ajoelhar nos primeiros bancos. Fizemos orações e nos sentamos para contemplar o Santíssimo. Percebemos que na sacristia havia alguém. Era um homem, podia-se ter a certeza só pelo pigarrear freqüente que passamos a ouvir. O homem não era outro senão o padre do albergue. Quando surgiu no umbral da porta da sacristia, paramentado, até se surpreendeu com a nossa presença. Ia iniciar a missa e para a nossa surpresa, só nós dois estávamos ali na frente. Atrás, bem lá no fundo da igreja, estavam várias mulheres vestidas de preto com véus sobre as cabeças. Nós não tínhamos dado conta da chegada delas. Ficou uma situação no mínimo estranha: nós na frente e as mulheres, viúvas enlutadas, lá atrás.  Mas optamos por continuar ali mesmo a missa toda. E pela leitura da cara do padre, ele pensava que não é todo peregrino, mesmo os que se dizem “católicos” que costuma participar das missas, caso, por exemplo, dos que se encontravam no albergue, gente de diversas nacionalidades, cada qual envolvido com os seus afazeres e não davam nem notícia da celebração.

Depois da missa fomos procurar o único bar do lugar onde se podia comer e beber alguma coisa. Encontramos logo o bar, mas estava fechado. Perguntamos a um jovem que passava quem era o dono para que viesse abri-lo e nos servir uma ‘tortilla francesa’. Não demorou muito apareceu do nada uma jovem com uma chave na mão. Ela foi logo abrindo a porta e as janelas do bar e nos ofereceu uma garrafa de vinho dizendo que a ‘tortilla’ viria em seguida. Depois que comemos e bebemos pagamos a conta e fomos embora para o albergue porque já estava na hora de dormir.

Deparamos com várias pessoas na cozinha do albergue comendo macarrão. Foi-nos oferecido e agradecemos. Estávamos cansados e queríamos dormir para repor as energias. Sílvia já não reclamava tanto das dores nas pernas e isso era um bom sinal. Quis pôr o meu colchão em um cômodo que funcionava como biblioteca para que pudesse dormir no chão, porque a cama de molas afundava e prejudicava a minha coluna, mas o casal responsável pelo albergue não permitiu dizendo que era contra as regras. No fundo, achamos que eles estavam desconfiados pensando que nós estávamos arranjando um pretexto para transar no meio da noite, o que não era o caso.

Despedimo-nos de todos e fomos para a cama. Vi logo que não ia conseguir dormir da forma como sempre durmo, de lado e com as pernas recolhidas. Com o colchão afundando no meio das molas, era grande o risco de me sufocar durante a noite. O único jeito era dormir de barriga para cima. Antes de cair no sono coloquei a carteira de dólares e euros presa à coxa onde certamente ninguém haveria de procurar o nosso dinheiro. Na bolsa estava tudo que tínhamos, por isso era melhor prevenir do que ter de remediar.

Veio a madrugada. Fazia-se silêncio dentro do albergue. Estava difícil pegar no sono. Todos pareciam dormir porque eu ouvia roncos em vários idiomas tanto no nosso quarto quanto no quarto contíguo. De repente, ouvi o ruído da porta que se abria devagar. Vi um vulto de mulher loira entrando nas pontas dos pés descalços. Permaneci ali deitado, os olhos arregalados fitos na mulher loira e o coração batendo acelerado. Acompanhava os movimentos dela dentro do quarto. Teve um momento em que ela parou, olhou para um lado e para o outro e depois se encaminhou na direção da minha cama. Contive o ímpeto de perguntar o que ela queria até confirmar quais eram as suas reais intenções. Lembrei-me do dinheiro preso à minha coxa e entrei em pânico. “Ela, certamente, quer furtar o nosso dinheiro” – pensei e ao mesmo tempo tentei falar alguma coisa com Sílvia que dormia no beliche ao lado, sem despertar a atenção da mulher loira. A minha voz não saía. Tentei gritar por Sílvia repetidas vezes, mas só saía grunhidos entre os dentes. A mulher loira se aproximava cada vez mais de mim e eu estava petrificado em cima da cama incapaz de fazer alguma coisa a não ser tentar gritar. E tentei mais: “Sílvia, tem uma mulher loira dentro do quarto que quer furtar o nosso dinheiro”, mas só saíam grunhidos. E foram tantos que acabei por acordar Tudinha, senão todo o albergue também.

Fiquei aliviado quando ela me perguntou o que estava acontecendo porque foi então que me dei conta de que tudo não passara de um pesadelo. Quase nunca tinha pesadelos, mas naquela noite aconteceu talvez porque eu dormi de barriga para cima. É possível que isso tenha contribuído para a construção daquele sonho horrível.

Espichei o braço para apalpar a coxa. Senti o volume do dinheiro preso à perna. E foi então que o coração retomou o ritmo normal de batidas.
Enviado por Alberto Sena
 
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