Artigos Peregrinos

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O alemão e a fatia de pão
De como a solidariedade sempre supera a desfaçatez humana
Alberto Sena

Nós deixamos Burgos, antiga capital da Espanha, para trás e retomamos o caminho rumo a Santiago de Compostela com o objetivo de pernoitar em Hontanas, 24 quilômetros adiante. Da vez anterior, havíamos pernoitado lá e desta vez tínhamos a intenção de fazer a mesma coisa. Cinco quilômetros além de Burgos nós atravessamos a pequena Villalbilla e em seguida Tardajos, lugar onde parece haver só uma rua e transmite a sensação de se estar em alguma cidade perdida entre os escombros da Antiguidade.

Nessa vida efêmera, íamos, Tudinha comigo, refletindo sobre a beleza da criação de Deus que aí está o tempo todo e muitas vezes não a enxergamos, e por isso mesmo não lhe damos o real valor. Estamos perdendo o gosto pela contemplação. Vamo-nos embrutecendo sufocados pelos efeitos da globalização econômica, quando esta devia ser uma globalização sob todos os aspectos humanos. Só de imaginar o nascer do sol podíamos nos dar por satisfeitos e agradecer muito aos céus pela vida, porque se por mal dos nossos pecados o sol se apagasse, como a chama de uma vela se apaga ao sopro do vento, coitados de nós seres vivos.

Àquela hora do dia já havíamos andado uns 18 quilômetros, de modo que entramos em Hornillos del Camino como cães rastreadores e fomos seguindo o cheiro de comida no ar, até depararmos com uma casa de onde saía rolos de fumaça e vozes de várias mulheres que conversavam ao mesmo tempo. Era ali o restaurante. Entramos e ocupamos o único lugar disponível. Pedimos duas ‘tortillas francesas’ e uma garrafa de vinho e nos divertimos muito ouvindo a balbúrdia que as mulheres faziam dentro do restaurante. Havia ali mais de dez delas, e uma hora depois, quando conseguiram pagar a conta e deixaram o restaurante foi um alívio, reinou silêncio, embora várias outras pessoas ainda permanecessem ali. Foi como se alguém tivesse desligado uma betoneira que perfura asfalto nas ruas.

Comemos a fartar e bebemos como convém beber um bom vinho. Tomamos sorvete de sobremesa e experimentamos o calor do vinho somado ao calor do sol da primavera entrante. O ideal naquele momento seria se espichar numa cama, e por meia hora, tirar uma soneca a fim de restaurar as energias e continuar andando, engolindo quilômetros de trilhas que sempre levam às belas paisagens. Desta frase aí, caro leitor, considere só o “engolindo quilômetros de trilhas que levam às belas paisagens” porque é a parte que exprime a realidade de então, porque dormir sequer meia hora poderia repercutir mal no resultado final da jornada. “Andar é preciso”, dizíamos parafraseando Fernando Pessoa. Um passo deve sempre ser precedido de outro passo, enquanto viver, bem, “viver não é preciso”. Quem somos nós para estabelecer uma precisão na vida, como se a vida fosse a mesma coisa de dar uma simples corda em um relógio e se ficar escutando o tic-tac esperando a hora fatal. Viver é cheio de imprecisões, concluímos e fomos em frente vencendo o quase torpor da hora do dia ensolarado.

À nossa frente, quase seis quilômetros depois de uma caminhada solitária, onde não encontramos viv’alma, mas contemplamos grandes extensões de culturas de trigo, divisamos perdido naquele lugar ermo, o Arroyo San Bol. Localizado em lugar agradável, envolto por algumas árvores antigas, bem ao fundo do albergue há uma nascente de água cristalina e fria, ao gosto dos sedentos peregrinos. Arroyo San Bol se parece mais com um oásis em meio a um deserto verde de trigo com os pendões o tempo todo embalados pelo vaivém do vento frio da primeira quinzena de maio, vento que sopra em todas as direções.

Na porta do albergue encontramos estatelados no chão, como mortos, duas mulheres e um homem. Os três dormiam à fresca sombra de uma árvore. Fomos recebidos por Hubo, rapaz de 1,70 m e de cabelos claros, que se identificou como sendo o gerente do albergue. Era alemão de nascimento e vivera meia dúzia de anos no Brasil, e por isso falava português quase que sem sotaque. Ele nos conduziu até a cozinha do albergue, onde antes da nossa chegada picava cebola com uma faca para fazer sopa. A panela estava no fogão, e enquanto Hubo demonstrava os dotes culinários, íamos conversando. Monossilábico, ele deu-nos a impressão de ser uma pessoa que tem dificuldade de se relacionar com os outros ou então falava pouco porque nós chegamos numa hora errada, pois todas as pessoas ali, inclusive ele, possuíam as características próprias dos ‘malucos’, pessoas que usam algum tipo de droga.

Em cima da mesa, bem à nossa frente, estava uma bisnaga de pão com uma fatia cortada. Confesso que estava com fome, mais do que Tudinha, e foi de modo espontâneo, como quem avisa só por avisar que vai fazer uma coisa e ao mesmo tempo vai fazendo porque está certo de que a pessoa não vai levar em conta, disse eu, dirigindo-me a Hubo:

__Posso pegar um pedaço de pão?
__Não – a resposta abrupta soou como navalha afiada e a mão ficou paralisada no ar.

E Hubo completou:

__O pão não é meu.

O mal-estar tomou conta do ambiente. Tudinha se levantou e fez menção de ir embora. Percebi que não havia motivo para ficar ali por mais tempo. De que valia uma fatia de pão quando se tinha uma bisnaga inteira? Nós nos despedimos. Enfiei a mão no bolso da calça e retirei 200 pesetas (o euro ainda não estava em vigor) e pus dentro de um pequeno cofre de lata que continha a inscrição: “ponha aqui o seu donativo, ajude na manutenção do albergue”.

A caminho de Hontanas comentamos o fato de o alemão ter negado um pedaço de pão. Consideramos “o fim da picada”, porque um pedaço de pão não se nega nem ao mais ferrenho inimigo. O mal-estar se deu nem tanto por conta do pedaço de pão, mas por causa da negativa em si mesma, que denotou o que se passava dentro do peito do alemão. Mas nem um acontecimento desse pôde estragar o nosso bom humor. Claro, perdoamos Hubo. Mas na época, prometi de viva voz que se um dia escrevesse sobre a nossa passagem pelo Arroyo San Bol, contaria esse episódio só para o constrangimento do alemão, imaginando que o livro pudesse dar a volta ao mundo e o destino então se encarregasse de fazer chegar um exemplar às mãos dele.

Faltavam pouco mais de cinco quilômetros para chegarmos a Hontanas. Não é necessário dizer o tempo todo sobre o quanto o Caminho é mágico. E os passarinhos cantam como quem homenageia a passagem dos peregrinos, um verdadeiro coral de cantadores da natureza. Tínhamos a impressão de que a qualquer momento alguma coisa importante saída de algum lugar do mundo surreal ia nos surpreender. De um lado e do outro do Caminho as pessoas que passaram durante os anos de peregrinação amontoaram pedras, e Tudinha se apressou em colocar algumas pedras sobre pedras, meticulosamente, para manter a tradição, como quem constrói um santuário.

Hontanas surgiu de repente, atrás de grandes rochas e entramos na pequena cidade diretamente pela rua principal, onde fica o albergue. Chegamos atrasados para o jantar e a fome corroia o estômago. Logo depois de ajeitar os nossos apetrechos em um dos quartos, fomos para a cozinha onde um rapaz de tez queimada de sol fazia macarrão numa frigideira. ‘Ceará’, este era o apelido dele. Embora tivesse nascido na Paraíba. De temperamento alegre, ele nos deu as boas-vindas e nos ofereceu um pouco de macarrão. Aceitamos de bom grado porque estávamos com fome. Contamos a ele o episódio do alemão Hubo, fazendo as devidas comparações, e depois pedimos à mulher responsável pela comida no albergue para nos preparar duas ‘tortillas francesas’. Comemos e depois fomos tomar banho quente para nos relaxar.

Nós não conseguimos dormir direito naquela noite. Rolamos na cama, na parte de cima de beliches à noite inteira. Na parte de baixo dos beliches duas brasileiras roncavam em intervalos de mais ou menos 30 minutos cada uma. Elas nem se importavam com o incômodo ‘rec rec’ das camas no meio do silêncio daquela noite longa e fria.   


 

Enviado por Alberto Sena
 
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