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Dez Anos Depois
Guy Veloso

Para a amiga Cris Takeda                   

Espalhados na minha cama, vários álbuns de fotografia. É meia-noite. Contemplo suas capas coloridas que guardam imagens de uma viagem cheia de aventuras. Não consigo abri-los. Falta-me coragem para olhar uma foto sequer. A respiração torna-se ofegante; os olhos mareiam; deixo escapar na face um sorriso longo e verdadeiro – como todos os sorrisos deveriam ser.

São dez anos. Uma década marcada no calendário; porém, menos de uma noite, em minhas memórias; em “minha” contagem de tempo. De certo: a chegada em Santiago de Compostela está tão viva em minha mente que nem parece que hoje, 13 de julho, completo o meu jubileu de Caminho. Dez anos desde o dia que meus pés tocaram as pedras de granito da Praça do Obradoiro, onde as torres infinitas da Catedral de Santiago saúdam a chegada dos combalidos peregrinos; testemunhas silenciosas de suas lágrimas, sorrisos e promessas.

“ O que terei mudado neste tempo? Quais sonhos daquela época realizei? Qual daquelas promessas feitas adiante da Catedral pude honrar?” – indago-me neste momento. E, claro, não consigo de pronto responder nenhuma destas perguntas. Resolvo deixá-las de lado, portanto. Afinal, tem horas que não devemos nos perder em intelectualizações e sim, atirar-se de cabeça em devaneios – neste caso, as lembranças felizes que esta data me brindam.

Por fim tomo coragem e pego um dos álbuns ansiosos em mostrar seus sorrisos, poses e paisagens. Reparo os monumentos, os albergues, os bosques, as trilhas... Sorrio olhando os amigos, as festas, as manhãs ensolaradas daqueles 37 dias a pé desde Sant-Jean, na França, até o extremo oeste da Espanha, onde se acreditava antigamente ser o “Final da Terra”.

Curioso, que ao fechar o último álbum, já tinha – sem esforço algum – uma resposta na ponta da língua: de que havia, sim, mudado muito; de que tinha de fato lutado com unhas e dentes pelos meus sonhos desde então. Terminei de singrar pelos velhos álbuns cheios de cores dentro, com a certeza de que muito do que sou, devo àquelas experiências. De que o Caminho não deixa ninguém incólume. Que ninguém que foi tocado por seus tentáculos continua o mesmo.

Assim foi comigo. E nada mais posso fazer agora do que agradecer por ter tido tamanha oportunidade. O Caminho é para mim um doce que derrete lentamente na língua e não se gasta, nunca se decompõe. O Caminho não tem fim.

Guy Veloso (guyvel@amazon.com.br), 33 anos, escritor e fotógrafo, fez o Caminho no Ano Santo de 1993.                   


Enviado por Guy Veloso
 
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