Albergue de Peregrinos
Notícias, novidades, artigos, relatos, diretamente da Espanha

Convide a um amigo a visitar este site
 
 

Terceira Etapa - Cristina Oiticica

Acácio da Paz

Sto Domingo de La Calzada, Viloria de Rioja, Castrojeriz

Santo Domingo de la Calzada e Viloria de la Rioja

Quando chegamos em Santo Domingo de la Calzada, para nossa surpresa, a igreja ainda estava aberta apesar de serem oito horas da noite. Quando entramos um missionário que havia vivido na África fazia um lindo sermão no qual lembrava à congregação que a missão da igreja sempre fora missionária, ou seja, que sempre fora de ir em direção ao outro, de construir pontes entre as culturas. Isso me inspirou muito porque via correspondências com o meu trabalho: um trabalho peregrino que sai dos quatro muros do ateliê para encontrar-se com a Natureza, um trabalho que vai em direção ao desconhecido e nunca é o mesmo.

Acácio, Orietta e eu contamos a Paula, pois era a primeira vez que ia a Santo Domingo de La Calzada, porque tinha uma galinha e um galo branco dentro do galinheiro na igreja. Essa historia eu reescrevi no quadro que coloquei no dia seguinte perto da ponte construída por Santo Domingo:

A lenda conta que um casal de peregrinos alemães, que vinha acompanhado pelo filho e pararam numa casa em Sto. Domingo para descansar. Os donos da casa tinham uma filha que se apaixonou pelo rapaz. Ao ver que esse não lhe correspondia, resolveu vingar-se.
Escondeu dentro de sua bagagem uma peça de prata. Quando descoberto o rapaz foi logo levado a justiça, preso e condenado a morte na forca. Os pais ficaram desesperados, e constataram que o rapaz apesar de enforcado ainda vivia, e foram falar com o prefeito da cidade dizendo que seu filho ainda estava com vida.
O prefeito que nesse momento almoçava, e comia uma galinha e um galo assados disse- o rapaz esta vivo como esse galo e essa galinha nesse prato- nesse momento o galo começou a cantar e a galinha saiu voando.
Foram correndo ao encontro do rapaz, que ainda estava com vida porque Santo Domingo e a Virgem Maria lhe seguravam os pés.

No dia seguinte fomos a Viloria de Rioja, cidade onde Santo Domingo nasceu, visitar o albergue de Orietta e Acácio.
Fiquei muito emocionada ao chegar ao albergue. Vê-se que estes hospitaleiros realmente acolhem aos peregrinos com amor.Ao entrar vi a foto do Paulo (que alias é padrinho do refugio) e um trabalho meu com a imagem do portal de Santiago, onde os peregrinos põem a mão.
Deixei cinco quadros em Viloria de Rioja. O trabalho azul do quimono que havia
deixado na Gave de Pau com setas douradas e duas bocas com conchas.
Voltamos à noite para o jantar pois Orietta e Acácio oferecem uma ceia aos peregrinos todas as noites. Eles querem assim que os peregrinos possam partilhar suas experiências e se enriquecer mutuamente em vivencias.
É necessário esse contato pois as pessoas estão num estado espiritual muito forte e são capazes de perceber coisas que antes nem sequer vislumbravam. A riqueza que se revela nas coisas mais simples tais como ter uma cama para dormir, um teto pra se proteger da chuva, um prato de comida quente, uma palavra amiga se tornam essenciais ao longo do caminho.
No meu trabalho revivo esta experiência religiosa e mágica pois muitas vezes a Natureza me brinda com novos mistérios. Minhas telas e a experiência que elas me proporcionam alteram minha percepção do mundo, tal como o caminhar abre os olhos do peregrino a essência do caminho.
Éramos assim dezessete pessoas para jantar, na sala do albergue, todos reverenciando o privilegio de poder estar juntos depois de um dia solitário com o caminho. Acácio e Orietta fizeram uma pequena prece agradecendo pelos peregrinos de ontem e de hoje.
A presença do Paulo era palpável já que vários peregrinos pedirão pra posar em frente de sua foto. Nesse momento pensei em quantos peregrinos passaram por aqui guiados pela a sua estória, sua vivencia... eu dentre eles.
Voltei para o hotel com minha sobrinha e sonhamos: eu com desmoronamentos (já faziam alguns dias que sonhava com casas e pontes desabando) e Paula com o seu anjo pela primeira vez.
Tive que passar o dia seguinte inteiro trabalhando pra ter uma tela que pôr no leito do rio que passa por Santo Domingo. Pintei uma grande faixa de tela com sete quadros, onde escrevi a historia do santo e desenhei conchas. No final da tarde saímos para plantar a tela.
O rio estava totalmente seco e achei ideal plantar minha tela no seu leito de pedras. As folhas secas no chão, banhadas pelo sol que se punha, me davam a impressão de já estar no outono. Foi um momento muito mágico onde deixei a mente ficar vazia enquanto ia colocando as pedras.
Quando terminamos, os hospitaleiros voltaram para o seu refugio e nos resolvemos andar um pouco pelas pedras.
De noite Paula e eu saímos para ir a um restaurante e presenciamos uma cena muito sinistra: o teto de uma casa havia desmoronado e policias com lanternas buscavam por alguém embaixo dos escombros. Comecei a rezar pois já a vários dias sonhava com isso e via esse pesadelo se materializando frente aos meus olhos. O mais enigmático é que desde então não sonho mais com isso: como se o real decidisse espantar o sonho.
Como tínhamos mais um dia naquela etapa do caminho, resolvi ir até Casrtrojeriz, cidade onde existe uma fortificação em ruínas.
Trabalhei para essa etapa quatro quadros com os signos do caminho:

a concha com a cruz de Santiago,
a concha com a coroa da Virgem,
a concha com a seta,
a concha com o coração de Maria.

Paramos primeiro em San Juan de Ortega, depois de cruzar com um pastor e suas inúmeras ovelhas. Passamos por campos e campos de girassóis não colhidos, calcinados pelo sol escaldante da Espanha. Essa visão sempre me desola porque essas flores que nos traem tanto são abandonadas. Vejo nelas um sinal de que tudo que é plantado um dia deve ser colhido. Que o tempo vira nosso aliado quando decidimos trabalhar com ele, vivencia-lo sem portanto se abandonar. Eu não desejo que meus quadros, plantados com tanto amor e tanta estória, terminem como esses tristes girassóis, esquecidos e cegos ao sol. Sei que vou voltar.

Ao chegar em San Juan de Ortega, nesta tarde cinzenta, fui cumprimentada por uma pessoa conhecida: O padre hospitaleiro José Maria que com seus 80 anos continua dedicando sua vida a aqueles que estão em busca de um refugio.

Me lembrei que há dezesseis anos comi ali uma sopa de alho feita por Juanita, uma basca que conheci no caminho e que vinha comemorando bodas de prata com seu marido Theo. Nunca esqueci essa sopa porque ao ajudar Juanita na cozinha vi uma frase de Santa Tereza D’Ávila escrita da parede, “Entre as panelas, também se encontra Deus.” Mais um ensinamento do caminho: a verdade se revela nas coisas mais simples.

Quis entrar uma vez mais na igreja em estilo românico de San Juan de Ortega que é conhecida por sua Virgem que é iluminada a cada solstício. Nessa época, um raio de sol passa por uma das rosáceas da igreja e ilumina o ventre da virgem. Eu escolhi plantar atrás da igreja o quadro com a concha e o coração de Maria.

Em direção de Castrojeriz, passamos pelo convento em ruínas de San Anton, que hoje em dia além de ser um monumento gótico do século XIV que conserva reminiscências românicas, também é um refugio para peregrinos no verão. Durante vários séculos San Anton funcionou como uma espécie de pedágio no caminho: os peregrinos tinham que deixar pão, vinho ou dinheiro. Hoje o único que resta são os arcos e a abóbada do céu.

Lá eu deixei o quadro da concha com a coroa.

Seguindo pela rua mais longa do caminho, de aproximadamente dois kilometros, existe a colegiada de Santa Maria del Manzano; de lá vê-se a igreja de San Juan que tem os seus flancos dominados pela ruína de um castelo, que no século IX e X, era disputado pelos mouros e cristãos.

Dentre as ruínas da fortaleza, decidi deixar os dois outros quadros: um de concha com a cruz de Santiago e outro com a seta dourada.

Uma vez plantados os meus quadros, comecei a me despedir dessas planícies pisadas de sol. Agora só voltarei daqui a alguns meses para plantar outros quadros que seguirão em frente, até Santiago.
 

Enviado por Acácio da Paz
 
Parte integrante do site Caminho de Santiago de Compostela - O Portal Peregrino
Copyright  1996-2003