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São Francisco de Assís …nas pedras do Caminho
Natalino Saludes

No próximo ano 2014 se cumprirão 800 anos da peregrinação a Santiago de São Francisco de Assís. Com este horizonte a largo prazo estou buscando as pegadas e tradições de Francisco de Assis no Caminho de Santiago. A tradição oral é muito forte e por si mesma merece uma grande credibilidade, ainda que resulte impossível encontrar um ponto de apoio incontestável, tanto documental como testemunhal.
Com esta inquietude recorri o Caminho buscando todas aquelas pedras que podem contar-nos algo sobre o passo de Francisco de Assís e para minha alegria encontrei um cento delas.

Marco histórico.
A peregrinação de Francisco de Assis a Santiago se situa no marco da reconquista cristiana da península ibérica e de seu afã de iniciar o evangelho aos mulçumanos, com a palavra e sem a violência dos Cruzados.
Os reis de Espanha pediram ao papa Inocêncio III sua bendiçáo para uma Cruzada contra El-Mumenin, “Miramamolin”, emir dos almohades, com capital em Sevilha. Em 1212 Ximénez de Rada foi a Roma pedir ao Papa a aprovação de uma Cruzada no Ocidente contra os almohades, que ele mesmo predicou em toda a Europa como grande ameaça para a Cristandade. Em Pentecoste de 1212 Inocencio III impõe desde Roma um jejum de três dias pela vitória dos Cristiano em Espanha.
Poucos meses antes Francisco de Assis viu-se frustrado seu intento de embarcar até Síria; y em seguida lhe surge outra oportunidade de lutar contra os mulçumanos. Ainda que não seja seu terceiro intento, em 1219, quando por fim conseguiu anunciar sua PAZ ao Sultán de Egito Melek el Kamel, neto de Saladino, durante a Quinta Cruzada.

Os lugares que guardam tradição de sua presença em Espanha marcam um itinerário que bem poderia dirigir-se até Sevilha até que em algum lugar Francisco compreendeu a impossibilidade de seu projeto e desde a Cidade Rodrigo se encaminhará até Compostela bem por devoção a Santiago, - como afirmam os documentos do séc.XIV-, bem por tomar o caminho de regresso mais conhecido da Cristandade.
Em cambio, a tradição chegada a nós, e a escrita a partir do séc.XIV, diz que Francisco de Assis, em sua intenção de chegar à terra de mulçumanos, tomou o Caminho de Santiago por ser a via que todos os europeus tomavam.
Dois fatos que situam a Francisco de Assis em Itália que marcam o prazo e tempo em que ele pode realizar sua peregrinação: A Páscoa de 1213 quando ele recebe a doação do Monte Alvernia, em Novembro de 1215 quando assiste ao IV Concílio de Letrán. Ainda com esta amplitude de tempo seria muito difícil aceitar todo o recorrido fundacional do missioneiro que marcaria o conjunto de todas as tradições locais existentes.

Projeto Franciscano.
O que não admite dúvida alguma é que a Peregrinação Jacobea foi um projeto da primeira geração franciscana em seu programa de expansão e com a necessidade que a igreja tinha de homens fiéis e santos para combater os hereges.
Uma primeira expedição foi em 1217 há mando de Bernardo de Quintavalle. E em 1219, Juan Parente encabeçava um envio de 100 frades, por encargo do Capítulo General. Desta missão saíram à maioria das fundações que hoje em dia se diz fundada por Francisco de Assís em 1214, quando ainda se resistia a que seus frades se estabelecessem em conventos e abandonassem a vida itinerante.

Pedras do séc.XIII que falam de Francisco de Assís:
Francisco de Assís entraria na Espanha pelo caminho aragonês segundo a tradição de que dormiu em Undés de Lerda e de ali passou a Sangüesa.
A tradição local de Sangüesa a Velha conta que, São Francisco chegou à capela de San Bartolomé donde pôs a Paz entre os vizinhos. E nela fundaria o seu primeiro convento franciscano em Espanha. Rocaforte seria segundo Gonzaga, o lugar em que Francisco, caminho de Santiago, pediu a Bernardo de Quintavalle que ficasse cuidando de um doente.

Olite.
A igreja de Santa Maria la Real de Olite, datada no séc.XIII conta em sua fachada gótico-românico com quatro capitéis historiados.
Uma das cenas apresenta há três franciscanos, um dos quais sustem uma filacteria com este texto: “Franciscus Penitens”. Não necessariamente estão dizendo que Francisco passou por aqui; poderia tratar-se de uma admiração pessoal do cantero a um Francisco de Assís que conheceu ou que teve uma ordem para esculpir.

Cañas.
As monjas cistercienses de Cañas guardavam duas tradições orais: memória do lugar donde se hallaba o sepulcro da abadessa Urraca López de Haro, morta e quase santa em 1262 com 92 anos. E a amizade entre esta abadessa e São Francisco de Assís, peregrino a Santiago, que aqui se hospedou.
Em 1898 escavaram e encontraram o sepulcro segundo a tradição. Em o sepulcro de pedra se hallan talhados os assistentes a seu enterro, entre os quais dois franciscanos que, segundo a tradição conservada na memória, São Francisco havia deixado a encargo a quem com ele peregrinara, de que assistissem ao enterro desta mulher em atenção a sua amizade.

Burgos e Leon.
Conta Gonzaga, no s.XVI, que em Burgos; Francisco de Assís se viu com o Rei de Castilla, a quem apresentou a Regra de sua Ordem. E este encontro é o que se representa em ambas as catedrais: Em Burgos Francisco guarda fila atrás outros santos para presentear sua oferenda a Fernando III o Santo. A cena situa-se no tímpano da porta da Coronería. Em Leon, na porta central do Poente, Francisco está em frente ao Rei. Ambas as cenas situam no marco do Juízo Final.
Quem também apresentou credenciais ao Rei foi Juan Parente em 1219, segundo o protocolo habitual de fundação.

Villafranca del Bierzo.
Ainda que não exista pedra que conte, Villafranca é um dos lugares donde há tradição esta muito viva. São Francisco se hospedou no Hospital del Señor Santiago, hoje convento de Clarissas, junto ao qual a Vila lhe cedeu um terreno.

Santiago de Compostela.
Os dados sobre a presença de São Francisco em Santiago dariam para muitas páginas. O monastério beneditino entregou a Francisco um solar, no lugar de Valdedeus, para o assentamento de seu convento. A cambio Francisco se compromete a que seus irmãos paguem uma cesta de peixes cada ano em conceito de aluguel, tradição que se manteve até o s.XIX.
E a tradição mais forte e a do carbonero Cotolay, que vivia no monte Pedroso, junto a ermitã de San paio. Cotolay havia acolhido Francisco e ajudado a construir o convento.
Está muito documentada a presença em Compostela da família de D. Pedro Cotolaya, cuja estirpe não seria de humildes carboneros se não de homens acaudalados, e enobrecidos. Cotolay, por tanto, pode ter sido um burgês compostelano que ofereceu ajuda aos primeiros frades menores e ao mesmo Francisco.
Na ermita de San Paio conservou-se até faz um século uma imagem de São Francisco, datada no séc.XIII que havia sido uma imagem do homem que se conheceram neste lugar.

Cidade Rodrigo.
E entre todas as tradições que situam a Francisco de Assis por debaixo do Caminho de Santiago destaco a desta vila pelo testemunho de uma iconografia surpreendente na Catedral de Ciudad Rodrigo. Ademais de várias cenas franciscanas, tem uma imagem de pedra, do séc.XIII no arranque de um nervo da terceira bóveda, que caracteriza a Francisco de Assís com báculo (cajado) de caminhante em forma de Tau, descalço semblante jovem, sem barba e com as orelhas salientes, - tal como lhe define seu biógrafo Celano - e se conta que se cultivou em memória de seu passo pela cidade. A talha desta imagem coincide com uma segunda fase das obras da Catedral, reanudadas a partir de 1212.

Tudela.
Em seu regresso até ao norte são muitas também as povoações que contam a sua presença. Destaco a Tudela, donde se conta que a família dos Veraiz acolheu a Francisco e promoveu a presença franciscana em Tudela.
As tradições que lhe situam em Cataluña nos marcariam um itinerário de regresso à Itália passando por Barcelona, Vic.
Outras tradições locais nos marcariam um itinerário pelo caminho Jacobeo do Norte: Vitória, San Sebastián, Santander, Viveda em Santander, Oviedo, Torrelavega....
Outras que estão bastante longe de um itinerário coeretne: La Coruña, Lisboa, Arévalo e madrid, San Miguel del Monte em Guadalajara ou Huete em Cuenca.


 
Enviado por Acácio da Paz
 
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