Albergue de Peregrinos
Notícias, novidades, artigos, relatos, diretamente da Espanha

Convide a um amigo a visitar este site
 
 
O importante é que continuemos a caminhar
Acácio da Paz

Introdução à fenomenologia
dos itinerários espirituais

Jean-Yves Leloup
" O Imperador Amarelo, vagueando,
perdeu sua pérola, cor-da-noite.
Mandou a ciência procurar a pérola, mas em vão.
Mandou a análise procula-ra, em vão. Mandou a lógica, em vão.
Depois interrogou o nada e o nada a possuía!
Disse o Imperador Amarelo: 'Estranho, deveras.
O nada que não foi enviado,
Que não se esforçou por achá-la,
é que possuía a pérola cor-da-noite!'"

Chuang Tzu

Proponho-lhes apresentar sete etapas que são encontradas em quase todas as tradições. Cada um pode revestir estas etapas com as imagens e as representações da tradição que lhe é familiar. Contudo, tanto os Antigos Terapeutas como Graf Dürckheim falam em uma linguagem que não é religiosa, isto é, que não pertence a uma tradição particular. Falam da experiência de profundidade que existe em todo ser humano. O que se passa para que um homem ou uma mulher, tendo uma vida considerada normal, queira, derrepente, mudar de vida. Uma mudança de vida será uma travessia de sombra e de luz, com momentos de imensa felicidade e momentos de aflição e solidão.
Este itinerário pode nos ajudar a conhecer a mística das grandes tradições e pode também nos ajudar no conhecimento de nós mesmos. Porque, como dizia Maslow e como lembrava Roberto Crema, se hoje nós estudamos de modo científico, a vida dos santos e a vida dos sábios são porque eles têm algo a nos ensinar sobre o verdadeiro ser humano. E algumas vezes nós estudamos demais o ser humano a partir de suas doenças, quando poderíamos conhecê-lo melhor a partir de seu estado de realização. Mas este estado de realização não chega sozinho. É realmente um caminho e este caminho não é simples nem é fácil.
Estas etapas das quais falaremos são familiares a alguns de nós e é bom que possamos compartilhá-las juntos. Podemos nos deter em cada uma destas etapas, mas o que nos pede a tradição dos Terapeutas ou de Graf Dürckheim é que continuemos a caminhar. Porque o mais grave que poderia nos ocorrer seria pensar que chegamos.

O retorno à vida quotidiana
        O estado de transformação
                A passagem pelo vazio
                      A dúvida
                            As consolações
                                 A metanóia
                                       A experiência do numinoso

Primeira etapa: A experiência do Numinoso.

Então, como primeiro passo, como primeira etapa de todo itinerário espiritual, do ponto de vista fenomenológico, observa-se uma experiência do numinoso, seja uma experiência de transparência , seja uma experiência de dilaceramento. O numinoso nos fascina porque descobrimos a nossa realidade verdadeira e, ao mesmo tempo, nos faz medo porque questiona o nosso modo habitual de vida e de consciência. Mais adiante exploraremos melhor os diferentes lugares de nossa vida, onde o numinoso pode se manifestar.
Em uma abordagem rápida, para uns, o numinoso se manifesta na natureza, na grande natureza; para outros, manifesta-se na experiência da arte; para outros, ainda, é através de um encontro, do encontro amoroso, do encontro de um espírito com outro espírito, de um coração com outro coração. O numinoso pode ocorrer em um local sagrado ou na leitura de um texto sagrado; no decorrer de um acidente ou de um sofrimento físico intolerável. Pode acontecer através de uma experiência do absurdo, onde somos obrigados, às vezes, a ir além da razão; ou em uma experiência de solidão, quando, de repente, sentimo-nos envolvidos por uma presença. Finalmente, pode ser uma experiência de proximidade com a morte e sobre esse assunto temos, atualmente, testemunhos numerosos.

Poder-se-ia dizer que o ser fala a cada um com a linguagem que cada um compreende. Nem todos compreendem a linguagem da natureza ou a linguagem da arte. Então, o ser pode nos tocar, pode nos procurar através de experiências inesperadas, felizes ou infelizes. Mas esta experiência é única. Nela ocorre algo que nunca poderemos esquecer e que não poderemos também explicar. E, às vezes, em determinadas antropologias, estas experiências são reduzidas ou excluídas.

Em um itinerário espiritual, deve-se fazer desta experiência uma oportunidade de iniciação. Não considera-la como algo que jamais se reproduzirá ou como uma graça maravilhosa que queremos que se repita a todo instante. Porque essa experiência é uma revelação de nossa natureza verdadeira.

Mas agora, cabe a pergunta: Como reencontrar em nossa vida quotidiana o que poderíamos chamar de peak experience, experiência culminante? Graf Dürckheim a chamava de horas estreladas da existência, onde as estrelas noturnas nos servem de guias. É importante guardar a lembrança destas horas estreladas. A estrela que vai nos colocar a caminho é a estrela de Belém e os magos, os pastores, o asno e o boi simbolizam toda essa humanidade inconsciente e às vezes sofredora.

Segunda etapa: A metanóia

Assim, nos aproximamos do segundo passo que poderíamos chamar metanóia, mudança de vida, mudança de consciência. Nesta segunda etapa procuramos alguém que possa esclarecer o que acaba de nos acontecer. Porque podemos nos perguntar com lucidez se não estamos sonhando, se o que nos ocorreu não é fantasia, se não nos contamos estórias. E o sinal de que a experiência numinosa realmente nos tocou é que não podemos mais viver da mesma maneira que antes. Procuramos nos esclarecer sobre o ocorrido e temos em nós a humildade necessária para chegar a um real discernimento. Caso contrário arriscamo-nos a ficar na inflação, na megalomania.

A função da pessoa que vai nos acompanhar quer seja um terapeuta, um amigo ou uma amiga é, por um lado, nos tranqüilizar sobre o que nos acontece: "Não. Você não está enlouquecendo. Mas o que você vai fazer? O que você vai fazer desta experiência?" Nesse momento, aquele que nos acompanha deve ser também um guia espiritual, que não somente escuta, compreende e interpreta, mas também nos dá diferentes meios, exercícios e práticas que vão nos permitir retomar o contato com esta experiência inesperada e integra-la em nossa existência. A integração é essencial e por isso falamos tanto sobre ela. Porque podemos ter tido experiências maravilhosas e magníficas, mas, concretamente, em que elas mudaram as nossas vidas? O que mudou em nossa vida quotidiana?
Dessa maneira, podemos ter necessidade de uma prática, de um método em nosso itinerário. A palavra método deriva do grego methodos, onde odos quer dizer caminho. Como reencontrar o caminho para o nosso próprio centro? Portanto, se temos a sorte de encontrar um terapeuta, um amigo ou um guia, homem ou mulher, esta prática vai começar a dar frutos.

Terceira etapa: As consolações

Entramos na terceira etapa, na qual conhecemos certo número de experiências gratificantes, chamadas comumente de consolações. São momentos em que efetivamente, a paz dura um pouco mais e onde, no interior de nossa mente, o silêncio torna-se algo real. Onde a luz tem a duração maior que a de um raio. São João da Cruz fala muito destas consolações dos iniciantes e lembra que, às vezes, nós podemos tomar estas consolações como a finalidade do caminho, apegando-nos a elas e querendo repeti-las. É o que se chamará de materialismo espiritual. Tornamo-nos apegados a estados de consciência, tornamo-nos apegados a pequenos calores que vêm nos visitar ou a luzes que são como escotomas cintilantes em nosso cérebro.

Portanto, nesta etapa, é preciso acolher estes momentos gratificantes com gratidão, mas, ao mesmo tempo, não se apegar a eles e não procurá-los. Esta orientação é encontrada em todas as tradições. Porque, se nós nos apegamos a estes momentos, se quisermos reencontrá-los sem cessar, em lugar de nos ajudarem a avançar, eles nos param, nos bloqueiam, fazendo-nos entrar em uma espécie de complacência para com eles.

Quarta etapa: A dúvida

A vida, porém, é uma grande mestra e se encarrega de tirar nossas ilusões. Algumas vezes ela nos faz cair do cavalo, como fez Paulo no caminho de Damasco. Algumas vezes faz-nos encontrar leprosos, como Francisco em seu caminho. Então, podemos verificar se nossa experiência anterior deitou raízes em nós mesmos. Se a nossa experiência não era apenas um apego, um estado de consciência particular que nós chamamos de Deus ou de um outro nome. Mas Deus está além de todos os estados de consciência. Em outras tradições se dirá que o Nirvana está além de todos os estados de consciência. Corremos o risco de considerar um estado de consciência particular, em estado de bem-estar pessoal, como um ídolo e não como a presença de Deus. E por isso, algumas vezes, a vida faz cair os ídolos.

Na vida dos místicos há sempre esta quarta etapa, que é a etapa da dúvida. Uma fase em que nos sentimos secos como se fossemos o próprio deserto. Depois de termos conhecido o oásis e o frescor da fonte é preciso caminhar muito tempo em temperaturas ardentes. Após o tempo da consolação conhecemos o tempo da provação. Os japoneses chamam este tempo de "a grande dúvida". Este tempo em que dizemos: "Talvez todo este caminho que eu fiz até agora, todas estas práticas contemplativas e meditativas sejam apenas ilusões. Talvez o que eu chame de grande amor seja somente uma modificação dos seus hormônios".

Ocorre nesta etapa um questionamento total de si mesmo. É semelhante ao que acontece com amor, onde o verdadeiro amor se torna uma dualidade assumida e ultrapassada. A fé verdadeira se torna também uma grande dúvida, assumida e ultrapassada. Mas a fé que não assume a dúvida nada tem a ver com fé. Ela é apenas uma cresça uma crença que pertence a uma dada sociedade, mas não é uma experiência. A fé que assume a dúvida adere à presença do ser que está presente mesmo quando não o sentimos.

Quinta etapa: A passagem pelo vazio

Assim, chegamos à quinta etapa, à passagem pelo vazio, por uma espécie de vazio misterioso. Na língua grega fala-se da Quenosis que é uma espécie de aniquilamento. E neste caso será preciso discernir entre o vazio da depressão e o vazio de um caminho de transformação. O terapeuta deve estar muito atento neste momento. Não é porque uma pessoa se sente deprimida que ela se torna uma grande mística, mas, algumas vezes, certos místicos viveram experiências bem próximas da depressão. Eles tiveram a impressão de que Deus os abandonou e chega o momento em que, mesmo esse abandono, não tem mais importância.

Estamos aí muito próximos desta experiência de vacuidade, da noite do espírito e da noite dos sentidos. Da noite também do afetivo, porque, neste momento, nos damos conta daquilo que nós amamos não é o outro, mas o Todo-Outro, o que nós amamos é sentir-nos amorosos. O que nós amamos somos nós mesmos. Neste momento de vazio, descobrimos a alteridade do ser, uma outra consciência que não podemos confundir com nenhuma outra consciência particular. É nesta experiência de vazio que iremos vivenciar um novo nascimento.

Mestre Eckhart, que Graf Dürckheim considerava como seu mestre, dizia que é preciso ser virgem para se tornar mãe. É uma estranha frase e quer dizer o quê? Quer dizer que é preciso se esvaziar do seu Ego. Ser virgem é estar em um estado de silêncio, silêncio do coração, do mental e mesmo silêncio do corpo. Neste silêncio vai ocorrer uma imaculada concepção. No vazio de nós mesmos será gerado o filho, será gerada a filha de Deus. São palavras que podem parecer ousadas, mas tanto Mestre Eckhart quanto os Padres da Igreja diziam que nós temos que nos tornar Mães de Deus – Theotokos. Quer dizer que nosso corpo, nosso psiquismo, nosso mental, quando estão em estado de silêncio deixam passar a Grande Vida. Permitem que a Grande Vida se encare através da forma particular que nós somos. É como um vaso que depois de purificado e limpo foi aberto e que então pode dar de beber aos outros.

Sexta etapa: O estado de transformação

Portanto, a quinta etapa, a passagem pelo vazio, nos conduz à sexta etapa, que é o estado de transformação, de união. Os Antigos tinham uma imagem a esse respeito, Quando você coloca uma acha de lenha no fogo, inicialmente há fumaça, mau cheiro e depois vem o momento em que a madeira se transforma em fogo e não distinguirmos mais uma e outro. A experiência interior é estranha porque é como se estivéssemos além do sofrimento. O fogo não queima o fogo, por isso enquanto o fogo nos queimar é sinal de que ainda não nos tornamos fogo.

O que é descrito nesta etapa é o momento em que a acha de lenha do Ego se transforma na chama do Ser. É a experiência da sarça ardente da Bíblia, quando é relatado que o fogo queima na sarça, mas não consome. A divindade queima em nossa humanidade, não destrói a nossa humanidade, mas a ilumina por dentro. O Self não destrói o eu, mas o ilumina e o transforma por dentro.

Sétima etapa: O retorno à vida quotidiana

Poderíamos crer que a sexta etapa da transformação e da união fosse a última. Entretanto muitas tradições referem ainda outra etapa – o retorno à praça do mercado..., o retorno à vida quotidiana. É a integração na nossa vida diária desta chama, deste sopro, desta presença na qual nos tornamos. Na praça do mercado tem muito trabalho, vocês sabem. A praça do mercado é nossa cidade, nossa casa, nosso país e é também o universo. Trabalho é o que não falta...

O homem desperto não é o homem extraordinário, fantástico que tem um grande poder. Lembro-lhes, a esse respeito, uma estória do Buda, quando um de seus discípulos lhe diz: "Pratiquei muito o domínio da matéria e agora posso andar sobre as águas. Estou muito feliz! Espiritualmente, a que nível cheguei? Que vale esta realização? Qual o valor deste poder?" O Buda lhe responde: "Vá perguntar o preço da passagem ao barqueiro, na margem do rio". Fazendo o que Buda lhe pede, ele viu que não era muito caro, que não valia muito.

Portanto, estar desperto entrar em um caminho de transformação não é estar à procura do fantástico ou do extraordinário, mas é aprender a fazer de maneira grande as coisas pequenas. Como dizia Madre Teresa de Calcutá: "O que eu faço não é senão uma gota d'água no oceano de sofrimento que existe no mundo, mas é com a multidão de gotas d'água que vamos poder transformar o oceano".

Também nesta etapa é necessário o acompanhamento de um terapeuta. Por vezes ocorrem crises, mas também períodos de ilusão. O papel do terapeuta ou do acompanhante espiritual é sempre nos recolocar em marcha. E nessa marcha passamos de uma imagem de nós mesmos, mais profunda, mais real. Isto supõe que sejamos capazes de abrir mão do antigo. E por isso, às vezes, necessitamos de um acompanhamento.

Conclusão

Em conclusão, queria lhes dizer que não é preciso opor o conhecimento de si mesmo que a psicologia propõe e o conhecimento de si mesmo que a espiritualidade propõe. Porque, uma psicologia que não se abre a um itinerário espiritual arrisca-se a nos enclausurar e mesmo a nos desesperar. Penso no que nos dizia Jacques Lacan: " O sinal de que uma análise teve êxito é que a pessoa analisada vai se suicidar". Evidentemente não estou de acorde com esta visão. Diria, ainda mais, que ao final da análise, ao final de um itinerário espiritual não sobra muito da imagem que se tinha de si no inicio do processo. É como se houvesse uma morte de si mesmo. Mas esta Morte não é o fim. O que alguns chamam de morte da lagarta, outros chamam de nascimento da borboleta. O objetivo não é a morte, mas a ressurreição.

Uma psicologia fechada em si mesma depende de uma antropologia limitada, não aberta à transcendência, não aberta ao desconhecido que habita a profundeza do ser humano e a profundeza do ser cósmico, pode algumas vezes conduzir a impasses. Mas os itinerários espirituais sem discernimento psicológico, sem um trabalho de transformação pessoal, têm o risco de conduzir á megalomania. Nós nos tornamos por Deus, investidos de toda espécie de missões. Como uma rã que quer se tornar tão grande quanto o boi, o eu quer se tornar tão grande quanto o Self. Conhecemos algumas destas pessoas que são como que possuídas por um arquétipo interior, o arquétipo da Grande Mãe ou o arquétipo do Velho Sábio e se identificam com essa imagem interior. Nesta identificação há inflação, há doença. Esta doença algumas vezes é contagiosa, porque o narcisismo é contagioso. Ver alguém com uma tão elevada idéia de si mesmo pode ter algo de sedutor, mas a sedução o conduz, também, à desilusão.

Assim, o que impressiona em um ser humano que entrou neste caminho de transformação é, ao mesmo tempo, sua grandeza e sua humildade. Ele sabe que é pó e que ao pó retornará. Mas ele sabe que é luz e que à luz retornará. Não se pode esquecer nenhum destes aspectos. E o que é o ser humano, senão esta poeira que caminha para a luz e que dança nela? É a este caminhar, a esta marcha que nós somos convidados por Filon de Alexandria e Graf Dürckheim. Há também um grande andarilho, um grande caminhante que se chama Francisco de Assis e o seu próprio caminho pode iluminar o nosso. Por isso, eu passo a palavra a Leonardo Boff. E a vocês todos os desejo de uma boa viagem, um belo itinerário, com cumes e vales a atravessar. Porque o importante mesmo é caminhar!
 

Enviado por Acácio da Paz
 
Parte integrante do site Caminho de Santiago de Compostela - O Portal Peregrino
Copyright  1996-2003